quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Apenas Dezenove

"Pray tomorrow - gets me higher high high
Pressure on people - people on streets
Turned away from it all like a blind man
Sat on a fence but it don't work
Keep coming up with love
but it's so slashed and torn
Why - why - why ?
Love love love love love" (Queen - Under Pressure (feat. David Bowie))



Quase dezembro. Esse ano realmente passou muito rápido pra mim. Eu meio que me perdi no meu relógio várias vezes e muitas vezes perdi compromissos irreparáveis, acho que a palavra "compromisso" se tornou algo bem marcante na minha história. Vários motivos me levaram a crer que a cidade onde morei não é a cidade que eu sou bem vindo, entre eles há o fato de que os amigos que tive não são os mesmos que me têm, as paredes das escolas que há meu sangue invisível desenhado e meus olhos só vendo cinza toda vez que passo aquelas quadras repetitivas.


Óh, meus pais, o que pensaram quando eu disse que odiava aquela cidade? O que eles disseram quando conversaram sozinhos no quarto, quando eu lhes disse que não queria voltar, que quanto mais eu ficasse longe seria melhor? Pois bem, aqui estamos de novo, neste mesmo blog, neste mesmo horário, escrevendo algo que eu sempre escrevo todo ano. Este blog tem quase cinco anos de história, e nele eu coloquei quase todas as minhas cicatrizes, está registrado aqui todas as palavras engavetadas na garganta, que eu deixei de falar seja por medo, seja por vergonha, seja por timidez.


Eu construí aqui uma história que mesmo que eu um dia resolva apagar esse blog, um dia eu queira queimar todos os registros dessas palavras melancólicas, ela ficará marcada como se fosse uma cicatriz direto na bomba do peito. Cada palavra que eu escrevi aqui, foi com a minha alma que elas dançaram. Cada dia que eu chorei enquanto colocava essas dores, todos eles me fizeram o que eu sou agora. E quando eu escrevi que eu estava pedindo socorro, eu realmente estava dizendo socorro baixinho no meu quarto. Mas é claro, ninguém podia ouvir.


Entretanto, ninguém me salvou. Ninguém bate na porta das pessoas e diz "vim te salvar".Não existe super-herói. Se existisse, provavelmente estaria salvando pessoas de prédios em chamas e cidades em guerra. Eu não sou aquela coisa de prioridade, pelo menos, não no momento. Mas, eu acabei esperando, porque eu sou ótimo em ser idiota. Sempre esperando, sempre andando em círculos, sempre achando que se eu continuasse esse ciclo sem fim uma hora eu ia travar o sistema e tudo ia reiniciar de um jeito diferente. Só que a vida não é um computador.


Foi aqui a única vez que reli todos os textos de algum autor, e foi aqui que eu neguei a mim mesmo que eu tinha depressão. Mas eu tinha. Acho que se eu forçar bastante a memória eu consigo lembrar a ordem das carteiras no meu último ano do ensino médio. Ah, aquela época, panelinhas, briguinhas, coisas de adolescente tentando ser grande. Foi lá que eu reparei que história existe em qualquer lugar, a diferença é saber qual delas você precisa ler. Todas as que eu podia, eu li. Todas as que eu consegui chegar perto, eu tentei adicionar observações e comentários. Digamos que eu era um intrometido. Mas eu gostava de ajudar as pessoas a escreverem as histórias.


Eu sempre costumo dizer que minha memória anda queimada, só funciona pra coisas inúteis. Eu não lembro de todos os rostos que eu conheci, eu consigo apenas deixar os nomes marcados como se fossem alguma escrita antiga sem interpretação. Guria que eu dei o meu primeiro beijo, me perdoe, mas onde quer que você esteja, eu nunca vou lembrar de teu rosto, mas acho que teu nome era Amanda. Não, eu não estava bêbado, eu só tenho memória ruim pra essas coisas. Acho que beijei umas sete gurias em todos esses anos, e namorei umas duas. Mas me apaixonar? Acho que passa de vinte vezes.


Eu lembro também quando foi criado uma panelinha entre várias idades e várias coisas,e depois disso veio aquela história de gerações dessa panelinha. Por favor, um bando de adolescente retardado querendo falar de gerações? Mas o que se pode fazer numa cidade parada, é criar um mundo onde tudo corre rápido. Foi naquela cidade que eu arranquei minha alma várias vezes e coloquei de novo pra me ferir mesmo, e mano, pensando bem, foram várias vezes que eu tive que me esconder ou correr pra fugir de brigas que eu me meti sem querer. Eu era um ímã de confusão.


Ah, esses anos me proporcionaram uma confusão de sentimentos, talvez eu fosse uma cobaia de Deus. De qualquer forma, nesse final de ano, eu estou controlado. Quer dizer, continuo com ideias doidas, ideias simultâneas do nada, mas eu mudei. Mas, com tudo o que eu me tornei até hoje, todas as cicatrizes que eu fiz e que outros fizeram, me mostram minhas mãos tremendo de ansiedade e de empolgação. Dizia um poema, "sou sernhor do meu destino, sou comandante da minha alma". 


Mesmo que por um pouco, eu mudei. Uma mensagem às pessoas que me conheceram esse ano, vocês não fazem ideia o quão fundo eu sou, e cara, o meu mundo é grande. Meus olhos tem apenas dezenove, mas minha alma é uma anciã andarilha criadora de histórias. Ela me diz que esse ano mostrou o mundo pra mim de verdade, e não aquele preto e branco que eu morava. Ela me fez conhecer histórias e pessoas novas, gente que eu posso realmente encostar e colidir mundos. Ela me mostrou que eu posso dançar e sentir a vida. Eu posso. Eu vou. Eu sou.


**não esperem textos nos próximos meses, já que é época de festividade e férias então provavelmente estarei meio ocupado. Mas se aparecer texto é algo incomum, deixando claro.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Diários Estranhos De Lita (com participação especial) #4

"Vamos sair na rua gritando
o fim está quase chegando
e só nos resta morrer abraçados.
Mesmo que faltem cem anos
pra uma última guerra
varrer do planeta terra
todo os pobres humanos
que não conhecem o amor..." (Darvin - Aurora)




Eu realmente não vejo motivos para especificar como minha vida amorosa anda, ainda mais quando somente eu leio este diário (mentira). Antes de começar a falar (escrever, minha cara), quero ressaltar que eu odeio romance. Sim, odeio de odiar (ahhh, não pode ser verdade). Não gosto de ver os romances clássicos e nem antigos, odeio rosas, e também me irrita só de pensar numa serenata na minha janela. Acho que eu sou uma garota que não é garota (espero que não). Mas enfim, era dois de julho...

Dois de julho. Outono. Ah, cara, é uma bosta sair nesses climas só pra entregar um livro na biblioteca. Um frio terrível naquela manhã, tudo porque a doente da minha irmã “ainn, precisa entregar hoje de manhã senão leva multa”. Guria chata. Então, eu andei toda aquela bosta de avenida pra chegar aos confins do puteiro do inferno e encontrar a biblioteca (awn, que lindo, ele marcou um encontro com a biblioteca. Casamento é quando?). Eu cheguei ao balcão eu congelei.

Congelou mesmo. Até eu que sou distraída reparei. Ah, não foi por algo bom não, ele passou mal porque pegou uma mini-hipotermia (aquele treco de ficar congelado). Galerinha do atendimento colocou umas roupas quentes nele (sim, aparentemente ele não sabe a estação e também não sabe que pijama não é roupa para sair [tenho meus motivos]). Mas ele era bonito. Sim, eu sou fria, não burra. Ele tinha uns cabelos pretos bagunçados, meio por causa do vento, meio visto que ele desarrumava, e só mostrava apenas o olho esquerdo, que era preto. O outro olho estava tampado com um tapa-olho, acho que é aquelas pira de cosplay.

Depois de eu ter recebido roupas quentes e ter tomado um café quente que me deram, melhorei. Eu estava com aquela roupa porque tinha acabado de acordar e eu estava de pijama, sim aqueles calções ridículos e camiseta solta. A bermuda era listrada azul e branca, e a camiseta era verde com uma estampa tosca de marinheiro. Digamos que eu demore pra acordar e seja um idiota (você e a torcida do Corinthians acha isso). Mas depois daquilo, reparei na moça que estava sentada numa mesa, lendo um livro, tentando não rir e apontar pra minha cara (claro, eu tenho culpa se um doente sai da porta de pijama entregando livros). Então, eu reparei. Ela tinha miopia, usava uns óculos esquisitos e seu cabelo parecia que uma vaca fez o corte (não estava tão ruim assim [pra você]).

Merda, ele reparou. Ele me encarava como se fosse algum psicopata, e mesmo tendo entregado o livro, ele continuou sentado me observando. Eu tentei focalizar o livro, nem lembro agora, acho que era algo sobre terror. Dá pra notar que eu perdi totalmente a concentração. Eu estava ficando com vergonha, eu não queria realmente estar sendo observada por um estranho (no sentido de ser um desconhecido, e por ser estranho também).

“Eu vou lá”, dizia mentalmente. Mas tudo o que eu fazia era olhar e tomar um gole do café. Como puxar assunto com alguém estando de pijama? Acredito que nem mesmo James Bond seduziria alguém de pijama. Mas eu dei um passo, e segui. Ela não estava bonita, e nem mesmo ajeitada. Ela era um tipo de garota que normalmente eu não conversaria.

“- Ahn, eu posso estar de pijama, mas eu sou um cara bacana. E também, sei fazer rimas, com oxítonas e com a palavra visitas. Mas esquece. Tudo bom?”. Eu não acredito que eu achei engraçada essa montanha de merda. Eu ri. “- Tudo bem, mas por que está falando comigo? E quem é você?”. Ele ficou em silêncio por alguns minutos e me solta: “Eu posso ser quem você quiser. E eu te achei linda, e por isso estou falando contigo”.

Que merda eu estava falando, brigava comigo mesmo mentalmente. Tá brega, tá ridículo, tá estranho. Consigo ouvir cochichos das mesas ao lado, das pessoas rindo do meu jeito de falar com ela. Fico imaginando o que ela pensa de mim, provavelmente algo do tipo, “que cara é esse meu Deus, ele é louco?” (eu realmente pensei isso). Ela ficou vermelha. Vermelha. Meu Deus. Não é possível que algo como uma cantada tão ruim dessa funcionou.

Sim, eu fiquei envergonhada. Pela última frase, especialmente. De repente, aquele cara estranho de tapa olho e de pijama me cativou, sabe quando você está com muita fome, e de repente o cheiro te guia? É mais ou menos isso que me fez sentir (caralho, eu sou uma comida agora). E de repente, sem obter qualquer tipo de controle, eu já era dele. Sim, eu já era dele, era a primeira conversa, primeiro olhar, e ele já podia dizer que eu era apenas dele. Digamos que ele tenha me ganhado (nossa, gente, eu preciso de troféus).

E a gente, subitamente começou a conversar. Ela me falou seu nome, o que fazia, onde morava, do que gostava e do que não gostava (nota: não quis fazer isso, mas perdi o controle). Eu ri, e de repente, eu era dela. É algo esquisito de dizer, é algo indescritível. Sabe aquela sensação de quando você chega ao seu quarto, olha pra sua cama, dizendo que é aqui que quer ficar? Eu queria ficar pra sempre ali.

Ficamos quase duas horas conversando, até que ele disse que precisava ir embora. Eu era fria, mas eu sentia aquele negócio infantil de “por que precisa ir? Fica.” Mas eu não disse nada. Ele me pediu meu telefone. Minha nossa gente, tudo isso no primeiro dia e na primeira vez que o vi na vida. E pasme, eu dei meu telefone. Sem pestanejar. Sem reclamar. Sem sequer um “por que tu queres meu telefone?”.

Ela me deu o telefone. Ela. Me. Deu. O. Telefone. ELA ME DEU O TELEFONE, CARALHO. Eu me segurei pra sair calmamente como se fosse a coisa mais natural do mundo. Segui calmamente até a saída, esperei ir umas quadras a frente e comecei a pular e correr que nem como se tivesse ganhado na loteria. Doença mental é foda mesmo. Sorri pra gente mal-humorada, abracei crianças desconhecidas, e dancei ao passar a faixa de pedestre. Era um sentimento tão vivo e tão esquisito.

Ele acha que eu não vi fazendo essas doideiras. Ele acha que eu não reparei a felicidade no único olho dele, como se eu tivesse salvado a sua vida. Ele tinha algo. E assim, de repente, foi. Quando eu reparei, eu já estava namorando fazia cinco anos com esse imbecil. E quando eu reparei de novo, mesmo passando cinco anos, parecia que era os primeiros meses. Claro, brigas é natural. Por idiotice também. Mas, nada que uma boa bebedeira e uma boa noite de sexo não resolvam.

Eu a achei esquisita naquele dia. Mas, depois que saímos na segunda vez, ela estava linda. Ela tinha uns olhos claros, bem verdes, e usava aqueles mesmo óculos que parece que agora encaixava perfeitamente no rosto dela, e aquele sorriso, meu bom e querido Deus se isso for teu sinal eu acho que eu acredito em você. Ela me contou que odiava romances (eu sempre adorei), odiava música lenta (eram as que tocavam no meu rádio), odiava filmes românticos e de terror (eu gostava de ouvir o povo gritar de medo no cinema e assistia filmes de romances pra agradar minha irmã), e não suportava a ideia de comer pizza (meu Deus, que mundo é esse onde não se gosta de pizza?). Mas, mesmo com todos esses opostos, eu a quis.

Ele era algo completamente diferente de mim, era estranho e tosco. Mas mesmo assim, mesmo com todos essas manias dele, eu o quis. Eu o quis quando terminou o encontro, ele podia fazer uma cirurgia em minha alma como quisesse. Ele me deu um beijo, e sutilmente, eu retribuo. Droga. Eu tinha regras de primeiros encontros que eu seguia à risca, mas ele me fez esquecer todos eles. Beijos, beijos e mais beijos. Beijos no carro dele. Beijos no portão de casa. Beijos em casa. Beijos no sofá de casa. Corpos nus no sofá. Sexo. Amor. Fazia tempo que as palavras “beijo”, “amor” e “sexo” não apareciam na minha vida.

Cara, eu era virgem. Eu tinha quase vinte e três anos e era virgem. Sim, like a virjão lvl paladino 99. Eu zerei quase todos os RPGs (pesquisa se não souber, eu também não sabia), e sabia de cor a sequência de filmes do Star Wars e Lord of the Rings. E ela, seus olhos, me guiavam em todos os movimentos que eu fazia. Eu era um bosta mesmo comparado com o que ela era. Ela dizia que “não dou a mínima por quem você era, eu ligo pra quem você é agora. Meu”. Meu coração pareceu que ia entrar em combustão espontânea. E sim, eu era dela. Consenti.

Ele era virgem. E eu a experiente. Me senti meio mal por ser alguém que “transou mais que ele”. Mas, ele sorriu pra mim e disse “você é perfeita”. Meu Deus, que homem (obrigado, obrigado, *barulho de aplausos*). E assim, estamos completando cinco anos. É algo que se deve comemorar não?

Cinco anos. Cinco anos aturando aquele bicho que amo. Cinco longos anos aguentando a TPM, aguentando o ciúme, aguentando até mesmo as manias toscas de aparentemente querer marcar local no banheiro com seu punhado de cabelo (não é de propósito, seu idiota). Eu a quis. Eu a quero todos os dias de minha vida. E não ligo se ela ficar feia no futuro, porque eu também vou ser feio, então tá de boa (idiota²).

Ele me disse o motivo do tapa olho depois de um ano de namoro. Ele disse que tinha perdido a visão quando quis defender um amigo numa briga. O cara passou uma faca cortando o olho direito. Ele me mostrou, e tinha uma lente vermelha. Ele disse que achava daora, por isso usava. Meu Deus que piá tongo (é daora mesmo, sou duocolor). E assim, termina um simples texto (simples? Tá mais pra um rascunho da Bíblia), sobre eu, o idiota do meu namorado (lindo, como mamis me disse), e de como eu amo ele (repete, preciso disso).

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Sobre Eu, Você e Como me Tornei Seu

"Entra pra ver
Como você deixou o lugar
E o tempo que levou pra arrumar
Aquela gaveta
Entra pra ver
Mas tira o sapato pra entrar
Cuidado que eu mudei de lugar
Algumas certezas
Pra não te magoar"
(Cícero - Açúcar ou Adoçante)



Apodrecendo como se fosse nada menos que um ovo podre, deixando meu sorriso despedaçar como se fosse com um vidro. Bom, pelo menos as cicatrizes não pegam fogo. Carrego nas minhas costas o remorso e a vergonha de caminhar nessa chuva torrencial. Sinto saudades dela. Ouvi numa canção que é difícil encontrar anjos no inferno, e nunca tinha visto uma frase tão verdadeira. Meus olhos seguem qualquer rua, e tentativas falhas de tentar sobreviver. Eu consigo ouvir o barulho que me cerca nas ruas de novembro, cara, é pós-finados, e realmente, o tema combina. Talvez por ter matado a mãe e a filha de cinco anos seja tenebroso o suficiente para quem consegue ler essa carta.


Se você está lendo esta carta, provavelmente ou eu estou morto ou estou preso. Tanto faz, dessa vez eu encontro ela ao invés de mandar mensageiros. São quase quatro e meia da manhã, e eu ainda não lembro o porque de começar a escrever essa carta. Minha memória está uma bagunça, vejo os flashes maltratando meu cérebro. Ah, cara, por que diabos você teve que aparecer em minha vida, realmente, estava tudo certinho, tudo em seu devido lugar. Acho que amor serve só pra ferrar com tudo. Droga, eu não queria ter que te contar isso.


Estou começando a lembrar o motivo o porque de eu estar escrevendo. E também me lembrando o motivo de eu estar esquecendo. Eu bebi muito até te escrever, tem mais vodca do que sangue correndo em minhas veias. Como começar a te falar as coisas horríveis, hein? Me responda, como eu posso te falar as coisas? Como eu posso descrever nesta carta as coisas que eu antigamente cometia, as coisas assustadoras que provavelmente você irá ficar com medo de mim, me diz! Droga, acho que agora é tarde demais pra falar alguma coisa.


Quem eu era antigamente? Dessas coisas eu me lembro como se fosse ontem. Quando eu era pequeno, costumava jogar os animais que eu tinha de estimação do andar onde eu morava. Era bem alto, não lembro exatamente o número. Bom, como eu ia dizendo, eu costumava jogá-los, adorava a sensação de vê-los voar e encontrar ao chão. Me questionava como seria se fosse algo maior. Sim, desde garoto eu era assim. Podem procurar inúmeras razões de eu ser assim, seja meu pai que vivia ausente pra sustentar a família, seja minha madrasta que me espancava e mandava o meu meio-irmão abusar de mim sexualmente, enfim. Digamos que minha vida não foi das melhores.


E assim, eu cresci. Aos 15, numa crise de tantos abusos, esfaquei meu meio-irmão quando ele estava saindo do banheiro. Primeira vez que vi o sangue em minhas mãos, e junto a ela, a sensação de prazer. Ver o olhar desesperado dele ao ver a ferida, ver que estava tendo uma hemorragia, e o pior, vendo eu sorrir lambendo a faca com o sangue dele. Essa foi a primeira vez que matei alguém. Claro, por ser de menor, tudo foi acobertado, de alguma forma eu acabei com tratamento psicológico (como se adiantasse, a pessoa que o doutor encontrava era um personagem bem trabalhado), e passei minha vida assim até os 20 anos.


Aos 17, meu pai cometeu suicídio. Por incrível que pareça, eu não dei a mínima. Aparentemente, coisas como família, laços e amor fraterno era algo meramente ilustrativo. Fiquei com minha madrasta um tempo depois, mas não iria demorar muito. não é mesmo? Quando completei meus 18 anos e consegui minha carteira, a sequestrei e a amarrei numa árvore de um bosque que é bem pouco movimentado de madrugada. Acelerei o carro com toda a velocidade, e bati ele nela inúmeras vezes. O barulho não alcançava pois é bem afastado da cidade. Eu sorria cada vez mais. E assim começou minha sede insaciável de sentir alguma coisa.


Coisas como amor, amizade e sentimentos e emoções são como arte abstrata pra mim, nunca entendi, parece algo tão bizarro quando falam disso pra mim. E sim, quando sai de casa, graças as minhas notas altas em concursos e vestibulares, eu consegui um emprego de CEO de um banco multinacional. Mas nada que impedisse o meu hobby de se desenvolver, na verdade, eu virei um especialista. Os corpos que antes eram bastante escrachados e cheio de falhas em planos, se tornaram corpos perfeitos. Guardo uns 20 no meu quintal, acho que umas 15 são secretárias que contratava.


Apesar de ser uma merda não sentir muita coisa, eu vivia. Estava tudo plenamente organizado. Estava tudo ótimo, até você aparecer. Maldita hora em que você apareceu na minha vida, bagunçando tudo o que eu construí em todos esses anos. Eu fui na delegacia uma vez, aparentemente os vizinhos reclamaram do barulho que eu fazia ao escutar música alta (por incrivel que pareça todos eles são idiotas e nunca repararam nada), e eu fui lá prestar declarações. E então, eu te vi. Você me aguardava na sala. Você era a delegada. Droga. Filha da puta. Instantaneamente no momento que eu te vi, eu congelei. Ao encontrar seus olhos, parecia que você conseguia me ler como se eu fosse um banner gigantesco na sua frente.


Você foi fazendo perguntas, e eu dando respostas prontas e rápidas, aquelas do meu personagem. Mas bastava um derrapão e eu já deixava tudo ruir, pois o que eu prestava atenção era mesmo os seus olhos. Os seus olhos azuis perfeitamente encaixados nos óculos com as hastes rosa-claro. Merda. Merda. Saí de lá e eu não conseguia tirar você da minha cabeça. Era diferente. Era como se eu sentisse você em qualquer parte, como se eu estivesse conectado num GPS ambulante em você. Será que é isso que chamavam de amor?


Eu nunca perguntei o seu nome. Nunca nem falei com você. Mas eu pesquisei. Até deixei de matar pessoas por causa disso, tanto que ouvi dizer que a polícia estava preocupada por eu ter parado de fazer as coisas. Descobri o seu nome, endereço, idade, telefone, estatura, peso, hobbys e o que odiava (digamos que eu seja um especialista). Só falta ligar. Eu te liguei naquela noite fria de inverno, lembra? Você estranhou a minha voz, nunca ouviu falar de mim. Eu te expliquei que eu sou o seu pior pesadelo que pode virar um sonho se você permitisse. Você riu. A gente começou a conversar.


E na tua casa eu te beijei pela primeira vez depois de quase quatro meses. Eu senti toda aquele vulcão de sentimentos que as pessoas diziam. Merda, eu não sabia. E você sabia. Sabia que eu escondia algo, e cada vez estava mais difícil de eu esconder o lado errado. DROGA. Era tarde pra eu consertar as coisas que fiz. No último dia, quando vi que as coisas eram difíceis de esconder, e quando vi que vocês estavam um passo atrás de mim só, resolvi. Era tarde pra eu tentar salvar.

*******Pessoal, o texto agora tem 3 finais alternativos, que estão aqui embaixo, escolham o jeito que vocês gostariam que terminasse:


#Eu Te Amo Pra Sempre
Eu queria mesmo te dizer, eu nunca tive coragem. Por isso, eu saí de madrugada. Eu te beijei naquela noite uma última vez, com você dormindo. Eu fui covarde o suficiente a ponto de nunca ter dito adeus, nunca ter dito um eu te amo. Você pode me xingar agora, eu deixo. Mas esse eu te amo eu nunca disse, pra você não precisar devolver. Assim, com essa carta, o eu te amo fica pra sempre. Toda vez que tu ler, eu estarei dizendo um eu te amo.


#Desculpa, Sarah
Você insistia cada vez mais na história de que eu escondia alguma coisa. E eu insistia cada vez mais na história do personagem que eu tinha criado, mas você não era como os outros, você era a guria mais inteligente que eu já vi. Você disse que iria plantar uma plantinha no quintal, e eu com relutância permiti, mal sabia que era porque você sentia que tinha algo de errado ali. Você encontrou a única falha que eu deixei, uma pulseira de uma das minhas vítimas. Você me questionava, e eu em silêncio. Sabia que não tinha mais nada a se fazer. Você começou a cavocar e encontrou os corpos. Eu comecei a chorar, não queria que acabasse assim. Quando você estava distraída, acertei a pá na sua nuca. Foi o maior momento de aflição que tive. Matar sentimentos é assim? E então, com todas as minhas forças e lágrimas, te enterrei ali mesmo, não tive a capacidade sequer de tirar a sua vida com minhas próprias mãos. Desculpa, Sarah. Eu logo te encontro.


#Papel Do Vilão
Era uma confusão na minha cabeça, me perdia em todos os passos que eu tinha. A polícia e você cada vez em meu encalço, mas eu era somente um cara que não aguentava mais essa dor. Um dia, te puxei ao quintal. Era madrugada, e eu te fiz ligar pra polícia. Eu me denunciei na sua frente. Eu disse que eu era o culpado por todos os crimes e que eu podia apontar aonde estavam todos os corpos. Você estava em choque. O que me partia o coração era te ver chorar. Espero que garotas como você vão para o céu, porque se não forem, eu não faço ideia quem vai. E eu entrei na viatura, deixei você ir, deixei tudo pra trás. Algumas vezes temos que fazer o papel do vilão. Pena que eu fiz ele por 25 anos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Memória Desgraçada

"Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido"
(Lulu Santos - Apenas Mais Uma De Amor)



Há quem diga que cacos de vidro são presunções
Há quem fale que poesias são canções
E escrevo para muitos que vão ler
Mas querida, esta poesia é pra você


Você é conto de fadas do meu mundo de cristal
Você é meu sol em pleno dia de temporal
Posso ser reservado, estranho, estragado
Mas os teus olhos azuis me levam à um novo estado


Fazem tantos (perdi as contas dos) dias sem conseguir te ver
Se romances já foram verdades, as espadas não ultrapassam
As velhas verdades que tive tentando te esquecer
O mais incrível desta grande universo pessoal, que ela nunca vai saber


Persigo os pós de estrelas que você deixou antes de ir embora
Aqueles abraços que você nunca quis me dar de verdade
Aqueles beijos imaginários que todo dia dá saudade
Nunca pensei que um dia eu iria decorar aquela hora


(São oito e treze daquela cansativa noite,
É o último ponto antes da minha vírgula solitária
Consigo enxergar de tão perto nos seus olhos o trâmite
Que parece que Deus está cobrando de mim uma taxa alfandegária)

Minha linda, por favor, não me escute agora
Tente dormir mais um pouco, eu sei que está cansada
Mas eu acredito vêemente que olhar da janela não valerá de nada
Eu nunca existi de verdade na sua história


Eu acho que eu decorei o título da sua música favorita
Decorei também a coisa que mais te irrita
Seus sonhos e planos estão escritos num livro no meu balcão
No meu quarto não cabe mais coisas de decoração


Jazidas podem tentar imitar o brilho dos seus olhos
Feridas tentaram em vão lembrar dos seus sorrisos de modo falho
Por isso eu canto "Apenas mais uma de amor" antes de ir embora
Quem sabe essa memória desgraçada de você desapareça agora

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